sexta-feira, fevereiro 10

O lazer nas pequenas propriedades rurais - Os festejos, os brinquedos e as brincadeiras

 Antônio Roberto Mendes Pereira 

Lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais." (Dumazedier, 1976, apud Oleias). 

A palavra lazer deriva do latim licere, ou seja, "ser lícito", "ser permitido". 

O lazer deve fazer parte da vida de todas as pessoas, independentemente da faixa etária, é uma das condições para se ter qualidade de vida. Quando observo este fator nas pequenas propriedades rurais atualmente, percebo que o lazer nestes espaços é de pouca criatividade e de pouca variedade. Muitas formas de se divertir, de brincar, no campo estão sendo esquecidas, trocadas pela novela ou por programas de auditório, e também pela bodega, prazer alegria provocada pela ingestão de bebidas alcoólicas. A pelada se mantém estimulada pela cachaça pós o jogo de bola. Para as crianças poucas opções, pois não existe uma preocupação dos pais além do disponibilizar o desenho animado na TV de pouca criatividade e opção. O que fazer para mudar esta realidade? Como resgatar brincadeiras e brinquedos para as crianças? Como resgatar outras formas de aumentar a participação na comunidade para criar espaços que possam oferecer um lazer diferente, criativo, e cheios de alegrias, prazer e muita aprendizagem para toda a família? Este pensamento é o que este texto pretende abordar. 


Fomentar o resgate de um estilo de vida feliz, alegre e comum sem renunciar aos avanços tecnológicos, é a tentativa que se deseja na construção de espaços vitais em harmonia com o meio ambiente. E o lazer deve perpassar esta construção de forma interior, em cada um e no exterior demonstrando para os demais a satisfação no fazer, no ter, no comemorar e principalmente no conviver, contagiando as pessoas do entorno para viver e conviver feliz. 

A sustentabilidade também deve passar pelo equilíbrio onde um ponto de sustentação é a alegria, o prazer, e o estar bem, de bem com a vida e feliz. Logo, se quisermos uma sociedade sustentável precisamos também buscar formas para conseguir essa felicidade se possível diariamente, momentos de satisfação com o que sentimos, pensamos, e fazemos. 


HISTÓRIAS DE MOMENTOS DE LAZER QUE ME LEMBRO E QUE VIVI 

Você lembra como eram os finais de semana na zona rural a algumas décadas atrás? Em uma comunidade rural o que se fazia para se divertir de forma saudável envolvendo todas as famílias? O que estimulavam as famílias a sair de casa no sábado e principalmente no domingo para se encontrar, para se divertir? 

Muita coisa acontecia, não sei se podemos dizer que ir a missa é um lazer, mas na verdade o encontro com as pessoas, com a comadre e com o compadre e as crianças eram com certeza um momento de prazer e por que não dizer de lazer, se descontraia, as fofocas aconteciam e se atualizava dos acontecimentos além da porteira da propriedade. A igreja sempre foi um espaço de confraternização, de encontro, de festa como exemplo na quermesse, ainda proporcionando momentos de confraternização e encontros coletivos de muitos festejos, como batizado, casamentos, entre outros. 

Na zona rural tanto os batizados como os casamentos são momentos de muita comemoração regados a música, bebida e muita comida regional e farta, independentemente do poder aquisitivo, sempre davam um jeito para festejar estes momentos com o máximo de pessoas. 


Os aniversários na zona rural pouco são comemorados pelas famílias, pelo menos no nordeste do Brasil, motivado pelo grande número de filhos que as famílias possuem, inviabilizando comemorar cada aniversário. Precisamos construir uma cultura onde o comemorar um aniversário não necessariamente precisa ter festa, precisa sim ser festejado, lembrado, regogizado. Comemorar o aniversário é agradecer a divindade natureza o estar vivo, e ser e estar feliz, mesmo com os atropelos da vida. 

Muitas diversões estão ligadas a cultura local e as tradições, daí nem todos os tipos estão presentes em todas as regiões. A cavalhada, a vaquejada o reisado entre outras fazem parte de festejos muito bem territorializados. Mas, com certeza toda região tem suas formas culturais de festejar, de se alegrar, de se confraternizar, de se religar com o Divino, com a natureza, e com os antepassados. 

Permaculturalmente falando toda propriedade deve ter uma zona de recreação, onde o não fazer nada está direcionado para o lazer, o descansar, o brincar, o festejar. As crianças na propriedade permacultural precisam ter áreas para brincar, para ser criança de verdade. Balanços, gangorras entre outros devem fazer parte da vida cotidiana. Estes espaços é um ótimo lugar para a prática da socialização das crianças com outras crianças de sua faixa etária. É uma forma de iniciar a prática de construção de relações sustentáveis na tenra idade. 

O esporte também era uma ótima estratégia para a prática do lazer, do estar bem com a mente e com o corpo. Muitas modalidades de esporte precisam ser ensinadas e praticadas para fazer parte da cultura local. A melhor idade para a introdução de novas modalidades esportivas é quando se é criança. Temos tempo, vontade, flexibilidade corporal, só faltando incentivo para a prática. 

BRINCADEIRAS DA MINHA ÉPOCA 

Pau de sebo – Brincadeira onde se pegava um pau e passava nele sebo de animal, para criar dificuldade para subir no mesmo. Quem chegasse ao topo do pau recebia um prêmio em dinheiro ou qualquer outro brinde.


Corrida de saco – vestidos com um saco até a cintura, o objetivo é chegar primeiro sem cair a uma distância estipulada. 




A PERMACULTURA NA RELAÇÃO COM O PRAZER E A DIVERSÃO 

Será que a prática da permacultura tem alguma coisa haver também com o prazer? A permacultura é uma espécie de terapia permanente que nos remete sempre buscar o equilíbrio com tudo e com todos que fazem parte dos ecossistemas. Para ser feliz não é necessário especialista, nem divã, basta querer ser feliz, praticar a felicidade, buscar a satisfação em tudo que fazemos. Vejamos o que a prática da permacultura provoca: 

1. Prazer na relação com a natureza – É quase que impossível não sentir este sentimento, esta sensação, se por acaso não acontece isto com certeza não estamos praticando a Permacultura, pode ser qualquer coisa menos permacultura. Ela ti sensibiliza para olhar diferentemente para os ecossistemas e todos seus componentes. Ganhamos uma qualidade nova, um jeito novo de ver, olhar, sentir e praticar. Tornamos-nos mais observadores do detalhe, mais intuitivo e com certeza mais feliz. Só em saber que estou contribuindo no trabalho de construção da natureza e não na destruição é muito gratificante. 

2. Prazer e satisfação no comer bem – Comer bem gera satisfação, saber que foi sua família que produziu toda a comida e que ela foi produzida tendo como parceiro não a indústria, mas a natureza a satisfação é duplicada. Comida deve ser assim alimentar o corpo e alma, além de contribuir com a alimentação de uma infinidade de outros seres pós-consumo, com os resíduos que sobraram, diferentemente do resíduo que se torna lixo, que polui. Colher uma fruta no pé, é gratificante e gera um prazer inexplicável. O conhecer como produzir gera também um empoderamento altruísta de que sou capaz, sei fazer, sei produzir sem esta parafernália de insumos químicos e inorgânicos. Este empoderamento me faz contente, tranqüilo e confiante no futuro da minha propriedade. 


3. A manutenção da paisagem – A beleza de uma paisagem nos remete a tranquilidade, ao belo. A permacultura provoca a manutenção e a criação de paisagens onde as conexões são intensas e cheias de beleza, e acima de tudo também produtiva. Paisagem que suporta uma grande quantidade de vida diversa. No momento em que contemplamos uma paisagem bela instantaneamente dentro de nós gera-se uma sensação de satisfação, de tranquilidade de alegria sem limite, dá uma vontade de rir misturada com o chorar de estar podendo contemplar toda aquela beleza. Deve ser momento de festa poder usufruir de tal paisagem e momento. 

4. Resgata e ensina a festejar as estações do ano – O movimento de rotação da terra em conjunto com o de translação, gera os dias e as noites, como também as estações do ano. Os equinócios e os solstícios são comemorados por muitos povos, como forma de agradecer a natureza por mais uma passagem que vai lhe proporcionar a chance de poder produzir novamente seu alimento. Tem-se a chance de renovar as forças da natureza, de se abastecer novamente destas forças em si e nos espaços produtivos. A comemoração destas passagens é com muita festa e rituais de agradecimento, precisamos ensinar aos nossos filhos este ciclo natural que demarca tempo, estação, momento de chuva, de frio, de calor e de seca, todos estes momentos fazem parte da natureza e precisa ser entendido e compreendido e respeitado, sabendo como aproveitar destas forças cíclicas. Precisamos festejar mais a natureza e o que ela nos proporciona. 


A comemoração junina surgiu no período pré-gregoriano, com a celebração do solstício de verão no hemisfério norte e solstício de inverno no hemisfério sul, conhecida como Festa da Colheita. Com o domínio da religião Católica, a festa foi rebatizada com o nome de Festa de São João, a popular Festa Junina. 

5. Ensina a brincar com o vento, com o sol, com a água, com o barro – Para as crianças principalmente os filhos de agricultores é imprescindível aprender brincar com estes recursos da natureza. Manter contato do toque, do manipular deve fazer parte da vida e das diversões destas crianças. 




As duas imagens acima são modalidades de exploração do trabalho infantil, crianças são forçadas pelos pais a trabalhar para aumentar a renda da família. A infância passa sem ter tempo para ser criança, para poder brincar, correr, se divertir. 

A permacultura provoca, incentiva momentos onde estes recursos devem ser utilizados na diversão e como instrumentos de aprendizagens. O cata-vento, os bonecos de barro entre outros podem ser brinquedos de criança que precisam ser estimulados. É no mexer, no brincar que as aprendizagens vão fazer a diferença entre o conhecer e o não conhecer. 


Manipular com estes insumos da natureza ensina as crianças a se divertir com os recursos que se tem no local, além de estimular a criatividade. Um simples cata-vento ensina qual a posição que vem o vento, o barro demonstra a resistência e a versatilidade de seu uso para fazer uma infinidade de objetos que tem uma durabilidade interessante. 

6. Ensina a brincar com os animais sem maltratar – Ensinar para os jovens da importância dos animais nos ecossistemas deveriam fazer parte do ensino e da aprendizagem de qualquer ser que precisa da natureza para viver. Os índios passam para seus filhos a importância da relação com todos os seres da natureza, em especial com os animais. Cria-se uma relação harmoniosa onde o brincar e a brincadeira com estes seres fazem parte do dia a dia. É uma diversão completa onde se aprende os desejos, os estímulos, e os hábitos dos animais. 


7. Brincar sem ter que pagar – Quando se fala em diversão sempre vem na cabeça dos adultos, parque de diversão, festas de rua entre outras formas. E na maioria das vezes para poder se divertir nestes espaços se faz necessário o pagar para poder ter direito ao brincar. A permacultura é versátil na criatividade para brincar, nas brincadeiras e nos brinquedos, estimula a criatividade, onde o invento é o passaporte para o lazer. 


8. O lidar com a terra – Para muitas pessoas a tarefa de lidar com a terra já é um prazer, é divertido, inusitado, desafiante, criar conexões entre a terra, o vaso, a planta, a flor, o fruto e a cor é instigante. É um raro prazer que precisa ser vivido, vivenciado. A alegria é o plantar e o colher é o prazer. 


9. Ensina a ser feliz ao ser solidário, ao ajudar o próximo, a participar do mutirão, a ser voluntário. Ser solidário é fazer sem querer nada em troca, faz você se sentir um ser feliz consigo mesmo. 

10. Receber visita e ser visitado – A troca de conhecimento deve acontecer durante toda a vida, mas para que isto aconteça é necessário o encontro como outro, a relação com outras pessoas. O hábito de visitar e ser visitado vem diminuindo nas comunidades rurais, as pessoas cada vez mais se afastam, se isolam, são poucos os momentos que estes encontros acontecem. 

Receber uma visita deve ser um momento de prazer, deve ser um momento privilegiado, onde com certeza os conhecimentos podem ser apresentados, ofertado para o outro, a experiência pode ser passada a frente para o engrandecimento da comunidade. Ser comunidade é poder ter as coisas em comum com os demais componentes que faz parte da mesma. 

Receber visita a algumas décadas atrás, se fazia até festa, oferecia-se sempre o que se tinha de melhor em casa em relação a gastronomia. Criava-se um momento onde os homens se encontravam e ficavam sabendo de novas formas de produzir de aumentar a produção, de descobrir onde e quem queria comprar seus produtos, as mulheres também podiam trocar informações, ficar sabendo dos acontecimentos mais distantes da sua casa, até as crianças tinham a oportunidade de brincar com outras crianças, era momentos de muito prazer, de muita brincadeira, de muitas risadas, era com certeza um momento feliz. Este tipo de prazer precisa fazer parte da cultura das pessoas, é engrandecimento humano e a Permacultura preza por estes momentos. 


11. A música – Quem não gosta de música? Dificilmente encontram-se pessoas que não gosta de ouvir musica, de dançar, de tentar acompanhar a musica até cantarolando, estes também são momentos que trazem muito prazer e alegria que devem ser estimulados permanentemente. O rádio ainda é um dos grandes companheiros dos agricultores, dificilmente encontra-se uma casa na zona rural que não tenha um rádio e que o mesmo não passe boa parte do dia sintonizado em uma estação que lhe traga noticiais, música, e informações do desempenho do seu time de futebol, além de poder fazer oferecimentos, é uma gostosa sensação ouvir seu nome sendo falado no rádio. Desde oferecimento de música até nota de falecimento este grande veículo de comunicação contribui imensamente nas áreas rurais onde poucos veículos de comunicação alcançam. 

A música consegue distrair, alegrar, relembrar situações e pessoas, além de poder trazer informações e ensinamentos que falam do dia a dia, de amor, de paixão, de engrandecimentos, de situações históricas e políticas vividas por gerações anteriores. Precisamos entender que a grande intenção da música é trazer paz, tranquilidade, alegria, e facilitar a instalação da satisfação. Para permacultura a busca de qualquer mecanismo que traga melhoria na qualidade de vida, deve ser uma intenção permanente de todo permacultor praticante, e ouvir música, é uma delas. 



PROPOSTAS DE DIVERSÕES EDUCATIVAS 

A necessidade de introduzir diversões inovadoras e acima de tudo educativa, me fez propor algumas formas divertidas de brincar e aprender ao mesmo tempo: 

· Feiras de trocas – A troca sempre foi um meio de se conseguir algo que queremos sem ter que comprar. Podemos estimular feiras de trocas solidárias nas comunidades propondo, por exemplo, troca de sementes, mudas, utensílios e até pequenos animais. É uma forma de aumentar o patrimônio genético da comunidade e de cada família de agricultor. 

· Gincanas genéticas – A competição sempre mexe com as pessoas, o desejo de demonstrar que é o melhor, que sabe fazer melhor, sempre estimulou as pessoas desde épocas remotas. Podemos “propor uma gincana com a seguinte temática: Conhecendo o patrimônio genético da comunidade” onde podem descobrir os seguintes patrimônios: 

Das sementes crioulas; 
Das frutas raras; 
Das raças nativas; 
Das frutas mais doces; 
Das frutas maiores; 
Do animal mais produtivo; 

· Gincana tecnológica – O conhecimento tecnológico também pode ser utilizado como diversão com aprendizagem. A criatividade pode ser exposta para toda comunidade divulgando as expertises, as experiências e os saberes adquiridos com o tempo. Como exemplo pode-se propor para a gincana as seguintes sabedorias: 

A melhor composição de ração balanceada com as plantas nativas; 
A maior quantidade de kg por m² dos mais variados produtos; 
O roçado mais diversificado, entre outras. 

Como se percebe, existem uma infinidade de formas de se produzir prazer e alegria: 

Divertindo-se 
Brincando; 
Fazendo; 
Trocando; 
Criando; 
Competindo; 
Cantando; 
Amando. 

Relembre o que te fazia feliz. Qual eram os momentos que você ficava contente e proporcione estes mesmos momentos aos seus filhos, desde que ecologicamente corretos, saudáveis, ou melhor, ainda que causem o mínimo de impacto ao ambiente. Pense como criar áreas para o lazer, que dê prazer e que sua família possa brincar, correr, pular, dançar, jogar e rir, ri muuuuuuuuuuuuito. 

Lembre-se, precisamos aprender como dosar o tempo para o trabalho e criar tempo para o lazer, isto ti conduz também a saúde, divirta-se, e evite ser e ter uma família triste. Faça do espaço de recreação como um circo cheio de brincadeiras e alegria, não seja um palhaço que vive e transmite tristeza, preocupação e problemas, sorria. 




09 de fevereiro de 2012

3 comentários:

  1. todo ser humano devia criar um ecosistema que envolvesse todas as necessidades dos mesmos,inclusive o lazer .de modo que facilite sua vida e valorize o espaço em que se vive ,mas nem todos são dotados a perceber que todos os lugares podem se tornar agradável por que isso depende da maneira de encarar as coisas!!!

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